A emblemática Ford Motor Co.<br>luta pela sobrevivência
A «Ford Motor Company» é uma das grandes companhias internacionais cuja trajectória cativa o imaginário dos observadores da grande indústria no capitalismo. Ela e o seu fundador, Henry Ford (1863-1947), revolucionaram os métodos de produção industrial em termos que se tornaram irreversíveis. E partiram, ambos, para a celebridade e para o lugar que lhes é devido na História do movimento industrial. Mas, no âmbito dos conturbados tempos que vivemos, dizem-nos que a companhia está a lutar pela própria sobrevivência e fazem-se sombrias previsões quanto ao seu futuro.
A situação da economia global, a queda rápida das vendas nos últimos anos, alguns capítulos menos convincentes inscritos no balanço da companhia, problemas com o capital pertencente aos respectivos pensionistas, levam a supor que a famosa «Ford» poderá ver-se forçada a aceitar o fim. Sean Edgar, o homem que descobriu os «buracos» da WorldCom e da Enron, disse: «Se não se tratasse de uma empresa com o nome «Ford» já teria resvalado para a falência». Logo os mais indefectíveis defensores do capitalismo retorquiram: «A empresa, no fim de contas, tem 26 mil milhões de dólares em caixa». Mas a realidade é dramática: essa mesma empresa tem dívidas que ascendem a 150 mil milhões de dólares. Desde 1999, as acções desceram de 40 para 7 dólares. Agora, os grandes Bancos de Wall Street, particularmente o Bank of America, indicam que o valor real do papel accionista da «Ford» não deve exceder os 2 dólares por acção para que possa reflectir a inviabilidade dos extensos programas de reestruturação nos quais nunca os mais reservados acreditaram.
Outros Bancos americanos de negócios, o Merrill Lynch, o Bear Stearns e o Credit Suisse First Boston, fizeram previsões pessimistas quanto às possibilidades de a «Ford» poder continuar a desfrutar de recurso ao crédito normal. A agência Standard & Poor esclareceu que o estatuto da companhia, para efeitos de crédito, poderá tornar-se insustentável. Isto, numa situação em que os investidores na «Ford Finance», a subsidiária que oferece crédito aos compradores de carros, já estão a pagar 540 000 dólares de prémio de seguro por cada 10 milhões lá investidos.
A crise vinha de longe. Mas agravou-se a partir de Janeiro de 1999 quando a «Ford» adquiriu a «Volvo» por 6.5 mil milhões de dólares. A mesma «Volvo», acentue-se, de que a «Renault» fugira tempos antes. Em Outubro de 2001, com perdas de 692 milhões de dólares em apenas três meses (Julho, Agosto, Setembro) o alarme soou. Toda a Detroit sabia das vitriólicas discussões entre o chefe-executivo, Jacques Nasser, e o presidente da companhia e seu primeiro accionista, Bill Ford. Este, com efeito, não perdeu mais tempo. De um golpe, despediu Nasser e recuperou para a família Ford o controlo das operações a nível diário. Como seria de esperar, o novo regime começou por despedir 5000 trabalhadores e encerrou diversas fábricas em diferentes países. De imediato, foram traçados os referidos programas de reestruturação, como é próprio das empresas capitalistas que não querem morrer. Mas esses programas, postos a trabalhar em adversas condições, não têm produzido resultados.
Um desastre espera
os trabalhadores da «Ford»
Se a importante companhia não conseguir sobreviver, os trabalhadores serão os primeiros na linha de fogo. Não só perderão os respectivos empregos como as pensões respectivas, geridas pela entidade patronal, possivelmente estarão em perigo. Os operários e empregados da «Ford» são conhecidos pela sua lealdade à empresa. Mas já nos dias da administração de Jacques Nasser se tinham visto obrigados a recorrer aos tribunais acusando a entidade patronal de discriminações diversas. Também os sindicatos realizaram acções várias no sentido de que a «Ford» fizesse regressar à fábrica-mãe a produção de peças e acessórios que entregava a «sub-contractors». Os acordos em vigor entre os sindicatos e a empresa caducarão em breve. Então, novas e muito mais dolorosas negociações, terão lugar.
Um dos aspectos mais importantes na história do rápido afundamento da «Ford» resulta de acusações surgidas quanto à segurança dos carros equipados com pneus «Firestone», principalmente os «Ford Explorer». Por outro lado, os «imaginativos» métodos de venda para o crescimento do volume de negócios, como a venda de carros a crédito sem juros ou sem qualquer pagamento durante os primeiros três meses após o contrato, acabaram por ser considerados por Martin Inglis, principal administrador financeiro da «Ford», como «caros e insustentáveis».
Estrada para o precipício
Janeiro –1999: Jacques Nasser assume o cargo de presidente e chefe-executivo da «Ford»;
Março – 1999: Foi concretizada, definitivamente, a compra da «Volvo» por 6,5 mil milhões de dólares;
Maio – 2000: A «Ford» admitiu pela primeira vez estar a lutar com problemas de segurança quanto a certos modelos de viaturas equipados com pneus «Firestone»; ao mesmo tempo decidiu encerrar a célebre fábrica de Dagenham (Inglaterra), a primeira instalada fora dos Estados Unidos;
Julho – 2000: A «Ford» comprou a «Land Rover» à BMW por 2.7 mil milhões de dólares;
Agosto – 2000: A «Bridgestone-Firestone» manda recolher 6,5 milhões de pneus que equipavam os carros «Ford-Explorer»;
Maio – 2001: A «Ford» faz o mesmo quanto a 13 milhões de pneus «Firestone» que equipavam carros já vendidos, por duvidar da segurança dos mesmos; esta operação custou-lhe 3 mil milhões de dólares;
Julho – 2001: Bill Ford, o herdeiro do império «Ford», toma o controlo da companhia e de todas as principais subsidiárias;
Agosto – 2001: Despedimento de 5000 trabalhadores;
Outubro – 2001: Anúncio de que as operações do terceiro trimestre do ano produziram um prejuízo de 692 milhões de dólares e de que o dividendo pagável aos accionistas seria reduzido em 50%;
Um homem e uma empresa
Henry Ford foi o pioneiro da indústria automóvel americana. Nascido no seio de uma família de cultivadores irlandeses, logo na escola local demonstrou grande interesse por questões relacionadas com a mecânica. Em 1879, foi trabalhar para uma relojoaria em Detroit, como aprendiz. Três anos depois, surgia no sector das máquinas agrícolas como reparador-montador. Entre 1892 e 1893 construiu, peça a peça, o seu primeiro automóvel partindo de um quadriciclo cujo motor de 4 cavalos era arrefecido a água, mas não fazia marcha atrás. Sócio da Detroit Automobile Company, o seu projecto de construir um carro acessível a todas as bolsas não resultou. Mas a «Ford Motor Company», por ele fundada em 1903, criou estruturas e tornou-se na mais poderosa empresa americana, a única verdadeiramente independente naquela época.
Em 1912, o sistema de construção em série, por ele inventado, possibilitou-lhe fabricar 75 000 carros. Foi um dos primeiros industriais a considerar a exportação como um dos melhores meios de expansão comercial. Para apoio de vendas mais rápidas em diversos mercados, criou um sistema de vendas a crédito permitindo a cada um dos seus operários, para começar, a aquisição do seu próprio carro.
A «Ford Motor Co.»
Fundada em 1903, produziu logo nos primeiros 15 meses da sua existência 1708 veículos, empregando 118 trabalhadores. Em 1910, o número de pessoas a trabalhar na fábrica era já de 4200 e a produção atingia nada menos de 34 500 viaturas. Durante a 1.ª Guerra Mundial e apesar de tentadoras ofertas por parte de alguns dos beligerantes, Henry Ford não aceitou produzir material de guerra. Mas mudou de posição quando os Estados Unidos entraram no conflito. Verificou-se, nessa altura, que o idealista industrial tinha cedido à lógica do imperialismo. Finda a guerra e até 1936, a companhia continuou a expandir as suas actividades criando fábricas de produção e de montagem em quase todo o mundo. Nos anos da 2.ª Guerra Mundial, toda a produção foi convertida para fins militares mas, alcançada a paz, a companhia participou, com a «General Motors» e a «Chrysler», nas ferventes campanhas da indústria automóvel americana para dominar o mercado europeu. A sua posição de segundo fabricante mundial, imediatamente após a «General Motors», firmou-se ao longo de várias décadas. Mas, agora... o princípio do fim parece aproximar-se.